Com chuva, enterro de Cunha Lima reúne centenas de pessoas na PBEnterro aconteceu no Cemitério Monte Santo, em Campina GrandeCorpo do ex-governador foi velado em João Pessoa e Campina Grande.


Corpo chegou ao cemitério Monte Santo em carro do Corpo de Bombeiros (Foto: Rafael Melo/G1) A tarde chuvosa mudou o tempo e a história da Paraíba neste domingo (8) em Campina Grande. O corpo do ex-governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, foi enterrado por volta das 17h no Cemitério Monte Santo, na cidade. A cerimônia reuniu centenas de pessoas, entre amigos, políticos, familiares e cidadãos comuns, mesmo com a forte chuva que caia sobre a cidade. O ex-governador da Paraíba morreu às 9h35 do sábado (7), aos 76 anos, na casa da família. Ele lutava contra um câncer no pulmão desde 2011.

O caixão foi levado do Parque do Povo, onde aconteceu o velório em Campina Grande, em um carro aberto do Corpo de Bombeiros. O filho e senador Cássio Cunha Lima foi em cima do carro, ao lado do governador do estado, Ricardo Coutinho, e do tio Renato Cunha Lima. A chegada do corpo de Ronaldo ao Monte Santo foi anunciada por trombetas da banda marcial da Polícia Militar. A cavalaria, com traje de honra, abriu caminho para o caminhão. Próximo ao cemitério, cadetes lideraram o cortejo a pé.
Populares, familiares e amigos acompanharam os últimos momentos antes do enterro. No cortejo, a população acompanhou cantando o nome do ex-governador e músicas de campanhas dele em eleições passadas. Centenas de pessoas se amontoaram na entrada do Cemitério e tomaram o espaço do local para poder dar o último adeus ao poeta.
Caixão foi colocado em túmulo sob orações e gritos de homenagem (Foto: Rafael Melo/G1)Caixão foi colocado em túmulo sob orações e
gritos de homenagem
Além de admiradores, estava presente também a família de Ronaldo. A esposa Glória, o irmão Renato e os filhos Ronaldo Filho, Glauce e Savigny acompanharam o enterro. Apesar da grande movimentação, a cerimônia foi rápida. Quando o caixão chegou ao local, já sem chuva, foi feita uma oração e o túmulo foi logo fechado. Nenhum familiar se pronunciou, mas observaram atentamente as mensagens do povo e o fechamento da capela onde Ronaldo desapareceu sob a testemunha de todos. O túmulo é da família, onde estão enterrados os pais do ex-governador.
Cássio acompanhou o enterro ao lado do governador da Paraíba, Ricardo Coutinho. (Foto: Rafael Melo/G1)Cássio acompanhou o enterro ao lado do
governador da Paraíba
Na chegada ao local do enterro, Cássio falou com a equipe de reportagem do G1 e agradeceu ao público pelo carinho com a família. "O sentimento é pelo orgulho, pela vida, pela existência do poeta Ronaldo. O agradecimento à Paraíba, a Campina Grande em especial por todas essas manifestações de tanta solidariedade e tamanho carinho. Viva o poeta Ronaldo", disse, abatido.
Depois de mais alguns toques das trombetas, o fim da tarde e o clima nublado encerraram o enterro. "O túmulo foi lacrado e abriu as portas da saudade", poetizou o irmão Renato na última despedida do poeta.
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Os prefeitos de João Pessoa, Luciano Agra, e de Campina Grande, Veneziano Vital, decretaram luto de três dias. Assim como a Assembleia Legislativa. O governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), emitiu nota lamentando a morte do ex-governador e também decretou luto oficial de três dias.

Ronaldo José da Cunha Lima nasceu na cidade de Guarabira, Brejo paraibano, em 18 de março de 1936. Formado em Ciências Jurídicas, ele era casado com Maria da Glória Rodrigues da Cunha Lima e tinha quatro filhos: Ronaldo Cunha Lima Filho, Cássio Cunha Lima, Glauce Cunha Lima e Savigny Cunha Lima.

Carreira política
Sua história política teve como palco principal a cidade de Campina Grande. Aos 23 anos ingressou na vida pública quando foi eleito vereador. Foram quase 50 anos de carreira política até a renúncia do mandato de deputado federal em 2007, último cargo público que exerceu. Ronaldo deixou o senador Cássio Cunha Lima, seu filho, como principal sucessor na política.

Ronaldo na posse como governador da Paraíba (Foto: Reprodução/TV Cabo Branco)Ronaldo toma posse como governador da Paraíba

Ronaldo já assumiu cargos no legislativo e no executivo: foi deputado estadual por dois mandatos e em 1969 se elegeu prefeito de Campina Grande, mas teve seu mandato cassado pela ditadura militar. Em 1982 ele foi novamente eleito prefeito da cidade, pelo PMDB, e assumiu o cargo em 1983. No ano de 1990 foi eleito governador da Paraíba, cargo que deixou em 1994 para concorrer ao Senado Federal. Foi senador e em 2002 foi eleito deputado federal. Com problemas de saúde desde 1999, quando sofreu um acidente vascular cerebral, Ronaldo ainda ficou alguns anos na vida pública e deixou o Câmara Federal em 2007, quando exercia o segundo mandato.

A eleição de 1990 foi marcante na trajetória política de Ronaldo. Ele foi derrotado no primeiro turno por Wilson Braga, que já havia governado o estado, mas no segundo turno virou o jogo e venceu com uma diferença superior a 100 mil votos.

Ronaldo chegou a ser detido para prestar esclarecimentos sobre tiro contra Tarcísio Burity (Foto: Reprodução/TV Cabo Branco)Ronaldo chegou a ser detido para prestar
esclarecimentos sobre tiro contra Tarcísio Burity

Polêmicas
Em função de um processo judicial por tentativa de homicídio contra seu adversário político Tarcísio Burity, Ronaldo renunciou, em 2007, à cadeira na Câmara Federal para escapar de julgamento no Supremo Tribunal Federal. Na época ele fez uma manobra para dispensar o foro privilegiado, na carta-renúncia ele diz que queria ”ser julgado como cidadão comum“. Leia a carta na íntegra.

O atentado contra Burity foi em 1993 e ficou conhecido como 'Caso Gulliver', nome do restaurante onde aconteceu o crime. O então governador Ronaldo Cunha Lima deu três tiros no seu antecessor, supostamente motivado por críticas que este teria feito a Cássio Cunha Lima, que era superintendente da Sudene. Burity sobreviveu e morreu dez anos depois vítimas de complicações cardíacas.

Ronaldo Cunha Lima no lançamento do seu livro 'Eu nas Entrelinhas', em 2004 (Foto: Arquivo/Jornal da Paraíba) 
Ronaldo Cunha Lima no lançamento do seu livro
'Eu nas Entrelinhas', em 2004

O poeta
Conhecido como “Poeta”, Ronaldo Cunha Lima também fez carreira como escritor e teve sua trajetória no cenário cultural imortalizada quando assumiu a cadeira de número 14 na Academia Paraibana de Letras em 1994. “A paixão dele pela poesia surgiu quando ele era criança. Isto porque o avô já era um exímio soletrista”, disse o jornalista Nonato Guedes, autor do livro “A Fala do Poder - Discursos comentados de governadores da Paraíba”.

Uma de suas principais paixões de Ronaldo na Literatura era a poesia do também paraibano Augusto dos Anjos, tanto que em 1988 participou e venceu o programa Sem Limite, da Rede Manchete, que fazia perguntas sobre a vida e obra de Augusto dos Anjos. O presidente da APL lamenta o fato de Ronaldo Cunha Lima ter enveredado pelo ramo da política. “É uma pena que o fascínio da política tenha exercido grande poder sobre a vocação do poeta”, disse Gonzaga Rodrigues.