O texto abaixo foi transcrito a partir de um vídeo gravado no dia 08 de fevereiro de 2013
03-Papo Cultural

Dona Lenita, Mestra do Coco de Roda dos Quilombolas Ypiranga e Gurugi, Conde - PB, fala sobre Cultura, Coco de Roda, Lapinha e outros ações culturais que desejaria ver aplicada no Município.  (o texto abaixo foi transcrito a partir de um vídeo gravado no dia 08 de fevereiro de 2013)
NOME COMPLETO...
 Lenita Lima do Nascimento Santos
A QUANTO TEMPO QUE A SENHORA TÁ NO COCO DE RODA...
 Já faz... Desde eu criança, com a idade de 07 anos. Eu acompanhava meus pais. Meus pais ia “brincá” e eu ia com eles também. Porque o coco era sempre a noite. Ele não deixava agente em casa só. Então agente ia e acompanhava ele.  Desde a idade de 07 anos. 
ISSO JÁ FAZ QUANTOS ANOS...
Sete, quer dizer, eu to com setenta e três... Vou completar “paromês”. Então...  Vai uns sessenta e...  Sessenta e três... É mais. É uns... sessenta e seis e sete. É uns sessenta e poucos anos. sessenta e quatro anos.
A SENHORA COMEÇOU AONDE...
Eu comecei aqui, bricando aqui em. Agente brincava aqui em Ypiranga. Brincava em Gurugi. Porque o coco de roda antigamente agente brincava assim. Mituaçu tinha coco de roda, mandava chamar o pessoal daqui. Ai ia “tudim” pra lá, “brincá” lá. E agente. As crianças ia com os pais. Agente mesmo acompanhava. Papai e mamãe. “Cumpade” Luiz ia também. Que era o tirador de coco daqui ia. Lá também um rapaz chamado de Zé Rodrigues, conhecido como Zé Coco. Que era afilhado de Papai. Também papai mandava buscar do Mituaçu. Mandava buscar... Vá buscar Zé Coco. Ai o pessoal vinha na canoa. Vinha buscar ele pra “brinca” lá no Mituaçu. 
NA CANOA...
É...
VINHA TOCANDO...
Sabe o que é uma canoa... Você conhece a canoa né. Ai vinha na canoa “sonove” pra vim buscar. Ai eles entravam na canoa. Tem até um coco que diz assim: “eu vim de mituaçu com mais de doze pessoas, embarcado na canoa remando contra a maré.”. Porque a maré tava vazando e eles vinham subindo. Contra a maré. “eu entrei pelo gramame e saí pela jacoca.” O gramame é o Rio Gramame. E a jacoca é o Rio Jacoca. “o rio faz tanta volta que só o currau de grê”. É um coco que o cumpade Luiz tirou. Porque foi ele que vei busca Zé Coco. Então era assim. Ia gente brincar. E agente ia aprendendo.  As ‘criança’ ia aprendendo. Na casa de Cumpade Luiz... na casa de Zé Coco. Tinha coco por aqui e tudo. Tinha um “senho” que ele ainda é vivo. “Mai” já tá muito... Com a idade muito avançada. É... o nome dele é “Ontonio”, mas é conhecido por João Sapo.  Ele mora lá embaixo no caminho de Guaximduba. E muitas vezes quando agente quer um coco bonito, agente vai lá, “cunvessa” com ele. Ai ele insina um coco bonito (risos) pra gente. 
NESSA ÉPOCA TINHA MUITA CRIANÇA...
Tinha muita criança que brincava... Era mesma coisa, quase como agora né. Mais só que, agora agente consegue, é um trabalho que agente tá fazendo. E agente sustenta a criança até quando eles querem. Quando eles não querem mais brincar eles saem por conta própria. Lá não. Antigamente era assim, agente começava o coco, as criança antes dos adultos chegar. Quando os adultos chegar, que a sala, era na sala... Dentro de casa, não tinha pavilhão nem nada. Então quando os adulto chegava, ele dizia sai as criança. Pronto (risos) agente não tinha mais direito a brincar. Porque a sala já era só dos “adulto”. 
DE ONDE VEIO O TITULO DE MESTRA...
De mestra... Veio de João Pessoa. Da FUNJOPE né. Agente trabalha, agente brincando coco por lá tudinho. Ai então, lá em João Pessoa, foi que eu recebi o título de mestra
E O QUE SIGNIFICA PRA SENHORA O TÍTULO DE MESTRA... QUAL A IMPORTANCIA QUE ELE TEM... SE ACRESCENTOU ALGUMA COISA...
Bom, pra mim mesma não mudou nada né. Não mudou nada (risos). E eu mesma ficava assim, um pouco com pé atrás. Porque é uma responsabilidade quando você recebe um título desse. É uma responsabilidade. E eu num queria... A minha idade num permite. As pessoas que eu trabalho. Que eu brinco com eles. Agora, hoje, Ana é a contramestra. Ai tá mais Ana. Ana tá mais assumindo do que eu. É muito difícil trabalhar com cabeça dos outros, com muito juízo viu. Você quer de um jeito, eles querem de outro. Ele dizia que... Você tá estressada, ele dizia. Porque eu sou muito assim. Se você marca “pa” o coco de roda sair de três horas, pra mim de três horas é pra tá todo mundo lá né. E eles não. Quando dizia é de três horas, tinha que mentir pra eles, é dizer... é de duas horas.  “Pá” “pude” vê que de três e meia, quatro horas eles estavam lá. Pra mim não é assim ne isso. Isso não funciona . 
QUER DIZER QUE ANTES NÃO TINHA ESSA, ESSES TÍTULOS NÃO NÉ, DE MESTRE, DE CONTRA MESTRE...
Não... tinha não. 
ISTO VEIO APARECER AGORA...
É... “Cumpade” Luiz era quem brincava, quem tirava coco aqui. Muito, muito coco “mermo”... Aquele agente podia dizer que era um profissional.  Mas... Não tinha o nome de mestre.  Hoje agente chama ele de Mestre... De professor, não é nem de mestre. Chama ele de professor, porque quase todos daqui aprendeu com ele, com Zé Coco... Mais ele né. Então agente chama ele professor.  Agente tirou até um coco que diz assim: “professor Luiz de França quem me dera você vê... Aqui tem quem lhe imite mas não tem como você.”  Tá “entendeno”, porque tem quem imite a ele, mas não tem como ele. Porque, agente sentado aqui. Ele tava ali. Ai ele saia na porta e olhava, dali ele já tirava o coco é...
E OS TOCADORES...
Os tocadores... Sempre, num era esses meninos. Porque esses “mininos” são novatos, são novo. Os tocadores eram mais antigos... Ele toca coco, ele balançava ganzá, Luiz de França. Era um tio meu de Mituaçu. Era Zé Coco, esse que eu já falei. Era Eraclito, que chamavam de Perré, do Gurugi, e era esse pessoal mais velho. Ai o pessoal foi morrendo e outros mais novo foi “assumino”. E hoje tocam do mesmo jeito. Eles tocam do mesmo jeito, não tem diferença. E tem um que toca mais. Tem um no Gurugi que ele num sabe dá valo a ele mesmo, porque ele, acho que ele num sabe da valo a cultura. Acho que o certo é isso. É Chero, acho que você conhece, um filho de Leta. Aquele menino toca divinamente, toca até diferente dos outro. O pessoal diz, quando o zabumba tá na mão de Chero convida agente a dança. Mas ele, agente chama ele pra dança...pra tocar, quando ele termina de toca, já é exigindo “dagente”. Ai agente, nem toda brincadeira agente pode pagar, nem ta recebendo, nem nada, porque pra mim a cultura mesmo agente não pode vende, num é. Num pode vende, pode brinca “pu” gratificação, porque até difícil, até agora... Foi muito difícil pra gente fazer roupa e tudo né. Pra “ajeita” os instrumento né. Então, agente e o que é que faz, agente recebe o cachê, já sabe pra que, a que vai. As vezes o rapaz sai, sai o pai de família do roçado, quando o coco é em João Pessoa, sai, perde o dia, não vai pra o roçado. Quer dizer, aquele, aquela contribuição que ele recebe, já coloca o trabalhador pra “cubrir” o dia que ele perdeu né. Mas ele não, seja aqui, seja em “quarque” canto ele quer receber. Ai agente num pode sustentar ele. Num dá “valo”, acho que é porque ele num dá valor a cultura.
A SENHORA TÁ VENDO ALGUMA VALORIZAÇÃO DA CULTURA HOJE...
Hoje eu to. Hoje pra mim olhe, a cultura eu. Precisa melhora muito ainda viu, precisa “melhora” muito, porque tem muitas coisa ainda que tá “interrada” aqui dentro, da cultura. Só tá mais o coco de roda né, há e tá, o... a capoeira. Mas tem a lapinha. Que agente temos uma lapinha aqui de idosos, porque os jovens não quer mais brinca né. Até porque tem uma tradição que é muito rigorosa, a questão de só quem “brinca” é moça né... E hoje em dia num tem mais isso. Hoje em dia se for fazer um “chá” de moça tá difícil (muitos risos).  Mas não bota isso não (muitos riso) pelo amor de Deus (risos).  Ai pronto, ai entendeu, ai é muito rigoroso. Ai, mas agente ai “dicemos” o que. Pra num acabar a tradição... nós “sabemo” dos verso. Teve pessoas que nunca brincou lapinha, como eu que nunca brinquei. Tinha muita vontade mai meu pai não “butava”.  Porque era muito dispendioso... porque começava se reunindo os pais “pa butar” os filhos na lapinha. Mas quando começava a lapinha cada um puxava “pa” seu lado. Era quem mais pudesse vestir seus filho né, milho. Então tinha pai que num tinha condições. Meu pai dizia, eu num “vo” gastar dinheiro pra “butá” meu filho em lapinha. E eu ficava “chorano” com raiva, e nunca brinquei.  To “brincano” agora, depois “cum” 70 anos. Agora parei até de brincar, por causa da operação né. Ai eu emprestei minhas roupa “tudinho”, pra outra menina, mulher brincá. Agora vou começa agora novamente, já to milho, ai vou começa. Mas tem a lapinha, que tá, tá... tem aquale a outra bricadeira... ciranda. A ciranda ainda tá aparecendo por ai a fora né, ta “aparicendo”. Mas aqui “mermo”, ninguém brinca, só brinca assim quando tá brincando coco no sábado do mês, ai agente diz, vocês querem brincar ciranda. Agente já é quem pergunta ne pra vê. Ai o pessoal quero.  E ai agente brinca, umas três ou quatro ciranda. Tem, qual é mais, é a lapinha... A ciranda... É tem outras “brincadera” que tinha aqui, que agente nem, que o pessoal nem fala mais. E tinha brincadeira que o pessoal brincava aqui, mas que... Pronto o boi morto aqui tinha quem brincava, agora agente num sabe mais nem quem era esse pessoal.  Tinha um bloco aqui, eu acho que era um bloco. Meu pai cantava muito e agente, aprendi algumas parte dele. Mas eu num sei como era que brincava, como era as vestes, porque agente era criança, e agente nunca se importava de pergunta papai como era as vestes, como era esta brincadeira. Agente, era, chama-se o clube caninha verde. Mas eu num sei como era. Sei da musica que diz assim: “o clube caninha verde, é um clube muito lindo, este clube é de arrojo, quem não pude vá saindo”. Que dize era um clube, tá dizendo tudo já né. Que era um clube e era muita gente que ia dançando e quem não pudesse ia se “arredano” prá ele passar. Ai dizia: “esse clube só não brinca quem não que, é mais custoso o dinheiro se ganha, depois do dinheiro todo junto, caninha verde sai na praia pra brincar.”. quer dizer, era um clube que juntava o dinheiro, pra se vestir, pra depois sair na rua. Era um clube de carnaval. Pelo jeito era.
E AS ESCOLAS... COMO É QUE A SENHORA VÊ... AS ESCOLAS ESTÃO CONTRIBUINDO...
É... as escolas... eu acho que ainda tão muito parada...é pra cultura, ainda tão muito parada. Porque tem varias escolas por aqui, e agente num vê nem fala. Tem algumas professoras que... agora, de tempos é...quando... agora no dia da cultura é quando elas procura fazer alguma coisa. Mas num é que a continue...ter a continuação aquilo. É só no dia da cultura. Ai vem procurar aqui, um CD, vem procura alguma coisa né.
E O QUILOMBO... COMO É QUE A SENHORA VÊ, O QUILOMBO NA ÉPOCA QUE TAVA MAIS PROXIMA DA CRIAÇÃO E HOJE...
 é... aqui, aqui antes agente não sabia que era qui. Agente só tinha, agente tinha assim... agente aqui sabia que agente era descendente de índio e de africano né. Por causa das moradia que eles tinham feito por aqui...as famílias, porque meu pai era de mituaçu. A família dele... os ante... os mais velho, os velhos mesmo tinha sido fugido de navio negreiro,  de Mituaçu... Então tinha lá, tinha gente que vei e ficou aqui em Gurugi e outros que ficaram em Mituaçu. E depois esse pessoal fez a família. Então agente tinha essa consciência que era descendente deste povo, mas tinha negro aqui, e como tinha em Mituaçu, e que num falasse que ele era nego nem por pensamento não que ele não aceitava. Num aceitava. Uma vez agente fez um encontro e veio gente de todos os Estados. E veio um dos Estados da Bahia. Representação dos negros ne. Mas menino...agente passou por vergonha. Por é obrigado eu chamar . eu num vou dizer... se for pra chamar atenção eu chamo mesmo. Eu num chamo no meio do povo, mas chamo a pessoa e digo fulano isso é feio, a pessoa nega e tava mangano do pessoal da Bahia. Ai foi obrigado a eu chegar perto de fulana que coisa feia é essa tu sois nega e tai mangando do nego. Quando o time vinha jogar repare Mituaçu, Mituaçu com Ypiranga, começa a discussão, desafio dos torcedores. Ai uns chamava, os de Mituaçu urubu e os outros chamava os daqui galinha de macumba. Sendo tudo duma co só. Ai eu ficava olhando assim... eu ria tanto, eu ria. Eu dizia, mas repara, um nego mangando do outro. Entendeu, quer dizer, eles não se aceitavam.  Quando agente começou a levantar a questão da negritude, tudinho aqui, a conscientizar o povo Ana e uma prima minha foi pra mituaçu, lá uma prima minha de mituaçu deu um show e boto as meninas pra correr. E se você vê a menina mais negra que tem em Mituaçu ela. A mulher mais negra. É porque ela é pretinha chega ela é azulada. Uma prima minha... mais não aceitou. Disse que agente tava ganhando dinheiro pra fazer isso não sei o que... que ela num era negra. Ai pronto. Ai agente parou. Depois foi que começou um grupo de João Pessoa a vir...se reuni aqui. Ai levamos ela até lá. E os pessoal de Mituaçu, viu os primo dagente Maurino veio pra cá...começou convesar e levando pra lá. Mostrando a eles a família dagente de onde tinha vindo, tudinho. Ai foi que a consciência começou. Ai depois dessa história do quilombo, agora não tem mais branco em Mituaçu. Tudo é (risos) negro agora, entendeu. 
TEM OS QUE CHEGAM NÉ...
É ... ingressam tudinho no quilombo...
TEM MUITA GENTE DE FORA AQUI NO QUILOMBOLA...
Aqui tem não... aqui a grande questão é que quem é defora não pode entrar na associação. Porque o estatuto reza que só pode entrar na associação, participar quem é descendente dos quilombo. Morar mora, mora muita gente de fora. Mas participar da associação só quem é descendente do quilombo. Que tenha algum parentesco. Teve parentesco aqui ai fica. Pode tá no Rio de Janeiro, pode tá onde tiver, voltou pra qui, é parente dos quilombola, então querendo participar, vai participar. Participando da reunião depois pode se associar. 
PRONTO, AI PRA FINALIZAR... A SENHORA INCENTIVARIA OS JOVENS A CONTINUAR NO COCO DE RODA...
Avemaria se eu pudesse, fazia uma reunião com todos os jovens e eles atendessem o chamado, acho que aquela sede onde agente brinca não cabia não. Porque eu acho que isso é uma cultura bonita e que não deve deixar morrer mesmo, de jeito nenhum. De jeito nenhum. A coisa que eu também pudesse mudar era... Era tempo. Era o São João. São João no caso eu falo o São João todo o mês de junho... Santo Antônio, São João, São Pedro. Num é, o mês de Junho. É, quando diz assim, que hoje é véspera de São João, tem uma brincadeira. Ai lá vem, lá vem uma banda toca, num tem nada a haver a banda com o mês de junho. O mês de junho “divia” ser coco, seria forro pé de serra. Forro pé de serra tem tanta gente aqui que toca “caboce”. E o povo aqui já perderam o costume que quando se diz é forro pé de serra. Há é forro pé de serra vou não. Embora que depois vá. Descendo como quem, um gato quando quer pegar um peixe vai olhando, e depois toca uma musica que se agrade entra e dança. Mas diz logo que num “vo”. Vai logo resistindo pra num ir. Se depender, a festa de São Sebastião todo ano via forro. Hoje o jovens já tomaram conta da festa então afastou, não tem festa pra idoso. Só tem pra jovem que pega uma latinha de cerveja e fica com a cara pra cima olhando a banda ali, pronto passou a noite. Os idosos não vão passar a noite olhando pra cima, então não vai lá entendeu, então se eu pudesse mudar isto então com certeza eu mudava. 
PRONTO... E A LAPINHA AQUI PRA QUEM QUISER ASSISTIR... É QUE DIA E QUE HORA...
Olhe a Lapinha agente brinca no último sábado do mês também... pronto sábado, o último sábado agora a Lapinha brincou. Brincou a lapinha e brincou o coco de roda. Porque quando vem brincadeiras de fora, vem grupos de fora, ai sempre ainda tem espaço para os dois grupos. Agora quando não vem ou vem um só... Ai tem espaço. A capoeira de Gurugi brinca sempre também aqui com agente no último sábado do mês. Eles tem o grupo do Navio Negreiro. Aquele grupo é muito bonito. Acho muito lindo.
Dona Lenita, Mestra do Coco de Roda dos Quilombolas Ypiranga e Gurugi, Conde - PB, fala sobre Cultura, Coco de Roda, Lapinha e outros ações culturais que desejaria ver aplicada no Município. (o texto abaixo foi transcrito a partir de um vídeo gravado no dia 08 de fevereiro de 2013)
NOME COMPLETO...
Lenita Lima do Nascimento Santos
A QUANTO TEMPO QUE A SENHORA TÁ NO COCO DE RODA...
Já faz... Desde eu criança, com a idade de 07 anos. Eu acompanhava meus pais. Meus pais ia “brincá” e eu ia com eles também. Porque o coco era sempre a noite. Ele não deixava agente em casa só. Então agente ia e acompanhava ele. Desde a idade de 07 anos.
ISSO JÁ FAZ QUANTOS ANOS...
Sete, quer dizer, eu to com setenta e três... Vou completar “paromês”. Então... Vai uns sessenta e... Sessenta e três... É mais. É uns... sessenta e seis e sete. É uns sessenta e poucos anos. sessenta e quatro anos.
A SENHORA COMEÇOU AONDE...
Eu comecei aqui, bricando aqui em. Agente brincava aqui em Ypiranga. Brincava em Gurugi. Porque o coco de roda antigamente agente brincava assim. Mituaçu tinha coco de roda, mandava chamar o pessoal daqui. Ai ia “tudim” pra lá, “brincá” lá. E agente. As crianças ia com os pais. Agente mesmo acompanhava. Papai e mamãe. “Cumpade” Luiz ia também. Que era o tirador de coco daqui ia. Lá também um rapaz chamado de Zé Rodrigues, conhecido como Zé Coco. Que era afilhado de Papai. Também papai mandava buscar do Mituaçu. Mandava buscar... Vá buscar Zé Coco. Ai o pessoal vinha na canoa. Vinha buscar ele pra “brinca” lá no Mituaçu. 

 

NA CANOA... É... VINHA TOCANDO...
Sabe o que é uma canoa... Você conhece a canoa né. Ai vinha na canoa “sonove” pra vim buscar. Ai eles entravam na canoa. Tem até um coco que diz assim: “eu vim de mituaçu com mais de doze pessoas, embarcado na canoa remando contra a maré.”. Porque a maré tava vazando e eles vinham subindo. Contra a maré. “eu entrei pelo gramame e saí pela jacoca.” O gramame é o Rio Gramame. E a jacoca é o Rio Jacoca. “o rio faz tanta volta que só o currau de grê”. É um coco que o cumpade Luiz tirou. Porque foi ele que vei busca Zé Coco. Então era assim. Ia gente brincar. E agente ia aprendendo. As ‘criança’ ia aprendendo. Na casa de Cumpade Luiz... na casa de Zé Coco. Tinha coco por aqui e tudo. Tinha um “senho” que ele ainda é vivo. “Mai” já tá muito... Com a idade muito avançada. É... o nome dele é “Ontonio”, mas é conhecido por João Sapo. Ele mora lá embaixo no caminho de Guaximduba. E muitas vezes quando agente quer um coco bonito, agente vai lá, “cunvessa” com ele. Ai ele insina um coco bonito (risos) pra gente. 


 
 NESSA ÉPOCA TINHA MUITA CRIANÇA...
Tinha muita criança que brincava... Era mesma coisa, quase como agora né. Mais só que, agora agente consegue, é um trabalho que agente tá fazendo. E agente sustenta a criança até quando eles querem. Quando eles não querem mais brincar eles saem por conta própria. Lá não. Antigamente era assim, agente começava o coco, as criança antes dos adultos chegar. Quando os adultos chegar, que a sala, era na sala... Dentro de casa, não tinha pavilhão nem nada. Então quando os adulto chegava, ele dizia sai as criança. Pronto (risos) agente não tinha mais direito a brincar. Porque a sala já era só dos “adulto”.
DE ONDE VEIO O TITULO DE MESTRA...
De mestra... Veio de João Pessoa. Da FUNJOPE né. Agente trabalha, agente brincando coco por lá tudinho. Ai então, lá em João Pessoa, foi que eu recebi o título de mestra
E O QUE SIGNIFICA PRA SENHORA O TÍTULO DE MESTRA... QUAL A IMPORTANCIA QUE ELE TEM... SE ACRESCENTOU ALGUMA COISA...

Bom, pra mim mesma não mudou nada né. Não mudou nada (risos). E eu mesma ficava assim, um pouco com pé atrás. Porque é uma responsabilidade quando você recebe um título desse. É uma responsabilidade. E eu num queria... A minha idade num permite. As pessoas que eu trabalho. Que eu brinco com eles. Agora, hoje, Ana é a contramestra. Ai tá mais Ana. Ana tá mais assumindo do que eu. É muito difícil trabalhar com cabeça dos outros, com muito juízo viu. Você quer de um jeito, eles querem de outro. Ele dizia que... Você tá estressada, ele dizia. Porque eu sou muito assim. Se você marca “pa” o coco de roda sair de três horas, pra mim de três horas é pra tá todo mundo lá né. E eles não. Quando dizia é de três horas, tinha que mentir pra eles, é dizer... é de duas horas. “Pá” “pude” vê que de três e meia, quatro horas eles estavam lá. Pra mim não é assim ne isso. Isso não funciona .
QUER DIZER QUE ANTES NÃO TINHA ESSA, ESSES TÍTULOS NÃO NÉ, DE MESTRE, DE CONTRA MESTRE...
Não... tinha não.
ISTO VEIO APARECER AGORA...
É... “Cumpade” Luiz era quem brincava, quem tirava coco aqui. Muito, muito coco “mermo”... Aquele agente podia dizer que era um profissional. Mas... Não tinha o nome de mestre. Hoje agente chama ele de Mestre... De professor, não é nem de mestre. Chama ele de professor, porque quase todos daqui aprendeu com ele, com Zé Coco... Mais ele né. Então agente chama ele professor. Agente tirou até um coco que diz assim: “professor Luiz de França quem me dera você vê... Aqui tem quem lhe imite mas não tem como você.” Tá “entendeno”, porque tem quem imite a ele, mas não tem como ele. Porque, agente sentado aqui. Ele tava ali. Ai ele saia na porta e olhava, dali ele já tirava o coco é...
E OS TOCADORES...
Os tocadores... Sempre, num era esses meninos. Porque esses “mininos” são novatos, são novo. Os tocadores eram mais antigos... Ele toca coco, ele balançava ganzá, Luiz de França. Era um tio meu de Mituaçu. Era Zé Coco, esse que eu já falei. Era Eraclito, que chamavam de Perré, do Gurugi, e era esse pessoal mais velho. Ai o pessoal foi morrendo e outros mais novo foi “assumino”. E hoje tocam do mesmo jeito. Eles tocam do mesmo jeito, não tem diferença. E tem um que toca mais. Tem um no Gurugi que ele num sabe dá valo a ele mesmo, porque ele, acho que ele num sabe da valo a cultura. Acho que o certo é isso. É Chero, acho que você conhece, um filho de Leta. Aquele menino toca divinamente, toca até diferente dos outro. O pessoal diz, quando o zabumba tá na mão de Chero convida agente a dança. Mas ele, agente chama ele pra dança...pra tocar, quando ele termina de toca, já é exigindo “dagente”. Ai agente, nem toda brincadeira agente pode pagar, nem ta recebendo, nem nada, porque pra mim a cultura mesmo agente não pode vende, num é. Num pode vende, pode brinca “pu” gratificação, porque até difícil, até agora... Foi muito difícil pra gente fazer roupa e tudo né. Pra “ajeita” os instrumento né. Então, agente e o que é que faz, agente recebe o cachê, já sabe pra que, a que vai. As vezes o rapaz sai, sai o pai de família do roçado, quando o coco é em João Pessoa, sai, perde o dia, não vai pra o roçado. Quer dizer, aquele, aquela contribuição que ele recebe, já coloca o trabalhador pra “cubrir” o dia que ele perdeu né. Mas ele não, seja aqui, seja em “quarque” canto ele quer receber. Ai agente num pode sustentar ele. Num dá “valo”, acho que é porque ele num dá valor a cultura.
A SENHORA TÁ VENDO ALGUMA VALORIZAÇÃO DA CULTURA HOJE...
Hoje eu to. Hoje pra mim olhe, a cultura eu. Precisa melhora muito ainda viu, precisa “melhora” muito, porque tem muitas coisa ainda que tá “interrada” aqui dentro, da cultura. Só tá mais o coco de roda né, há e tá, o... a capoeira. Mas tem a lapinha. Que agente temos uma lapinha aqui de idosos, porque os jovens não quer mais brinca né. Até porque tem uma tradição que é muito rigorosa, a questão de só quem “brinca” é moça né... E hoje em dia num tem mais isso. Hoje em dia se for fazer um “chá” de moça tá difícil (muitos risos). Mas não bota isso não (muitos riso) pelo amor de Deus (risos). Ai pronto, ai entendeu, ai é muito rigoroso. Ai, mas agente ai “dicemos” o que. Pra num acabar a tradição... nós “sabemo” dos verso. Teve pessoas que nunca brincou lapinha, como eu que nunca brinquei. Tinha muita vontade mai meu pai não “butava”. Porque era muito dispendioso... porque começava se reunindo os pais “pa butar” os filhos na lapinha. Mas quando começava a lapinha cada um puxava “pa” seu lado. Era quem mais pudesse vestir seus filho né, milho. Então tinha pai que num tinha condições. Meu pai dizia, eu num “vo” gastar dinheiro pra “butá” meu filho em lapinha. E eu ficava “chorano” com raiva, e nunca brinquei. To “brincano” agora, depois “cum” 70 anos. Agora parei até de brincar, por causa da operação né. Ai eu emprestei minhas roupa “tudinho”, pra outra menina, mulher brincá. Agora vou começa agora novamente, já to milho, ai vou começa. Mas tem a lapinha, que tá, tá... tem aquale a outra bricadeira... ciranda. A ciranda ainda tá aparecendo por ai a fora né, ta “aparicendo”. Mas aqui “mermo”, ninguém brinca, só brinca assim quando tá brincando coco no sábado do mês, ai agente diz, vocês querem brincar ciranda. Agente já é quem pergunta ne pra vê. Ai o pessoal quero. E ai agente brinca, umas três ou quatro ciranda. Tem, qual é mais, é a lapinha... A ciranda... É tem outras “brincadera” que tinha aqui, que agente nem, que o pessoal nem fala mais. E tinha brincadeira que o pessoal brincava aqui, mas que... Pronto o boi morto aqui tinha quem brincava, agora agente num sabe mais nem quem era esse pessoal. Tinha um bloco aqui, eu acho que era um bloco. Meu pai cantava muito e agente, aprendi algumas parte dele. Mas eu num sei como era que brincava, como era as vestes, porque agente era criança, e agente nunca se importava de pergunta papai como era as vestes, como era esta brincadeira. Agente, era, chama-se o clube caninha verde. Mas eu num sei como era. Sei da musica que diz assim: “o clube caninha verde, é um clube muito lindo, este clube é de arrojo, quem não pude vá saindo”. Que dize era um clube, tá dizendo tudo já né. Que era um clube e era muita gente que ia dançando e quem não pudesse ia se “arredano” prá ele passar. Ai dizia: “esse clube só não brinca quem não que, é mais custoso o dinheiro se ganha, depois do dinheiro todo junto, caninha verde sai na praia pra brincar.”. quer dizer, era um clube que juntava o dinheiro, pra se vestir, pra depois sair na rua. Era um clube de carnaval. Pelo jeito era.
E AS ESCOLAS... COMO É QUE A SENHORA VÊ... AS ESCOLAS ESTÃO CONTRIBUINDO...
É... as escolas... eu acho que ainda tão muito parada...é pra cultura, ainda tão muito parada. Porque tem varias escolas por aqui, e agente num vê nem fala. Tem algumas professoras que... agora, de tempos é...quando... agora no dia da cultura é quando elas procura fazer alguma coisa. Mas num é que a continue...ter a continuação aquilo. É só no dia da cultura. Ai vem procurar aqui, um CD, vem procura alguma coisa né.
E O QUILOMBO... COMO É QUE A SENHORA VÊ, O QUILOMBO NA ÉPOCA QUE TAVA MAIS PROXIMA DA CRIAÇÃO E HOJE...
é... aqui, aqui antes agente não sabia que era qui. Agente só tinha, agente tinha assim... agente aqui sabia que agente era descendente de índio e de africano né. Por causa das moradia que eles tinham feito por aqui...as famílias, porque meu pai era de mituaçu. A família dele... os ante... os mais velho, os velhos mesmo tinha sido fugido de navio negreiro, de Mituaçu... Então tinha lá, tinha gente que vei e ficou aqui em Gurugi e outros que ficaram em Mituaçu. E depois esse pessoal fez a família. Então agente tinha essa consciência que era descendente deste povo, mas tinha negro aqui, e como tinha em Mituaçu, e que num falasse que ele era nego nem por pensamento não que ele não aceitava. Num aceitava. Uma vez agente fez um encontro e veio gente de todos os Estados. E veio um dos Estados da Bahia. Representação dos negros ne. Mas menino...agente passou por vergonha. Por é obrigado eu chamar . eu num vou dizer... se for pra chamar atenção eu chamo mesmo. Eu num chamo no meio do povo, mas chamo a pessoa e digo fulano isso é feio, a pessoa nega e tava mangano do pessoal da Bahia. Ai foi obrigado a eu chegar perto de fulana que coisa feia é essa tu sois nega e tai mangando do nego. Quando o time vinha jogar repare Mituaçu, Mituaçu com Ypiranga, começa a discussão, desafio dos torcedores. Ai uns chamava, os de Mituaçu urubu e os outros chamava os daqui galinha de macumba. Sendo tudo duma co só. Ai eu ficava olhando assim... eu ria tanto, eu ria. Eu dizia, mas repara, um nego mangando do outro. Entendeu, quer dizer, eles não se aceitavam. Quando agente começou a levantar a questão da negritude, tudinho aqui, a conscientizar o povo Ana e uma prima minha foi pra mituaçu, lá uma prima minha de mituaçu deu um show e boto as meninas pra correr. E se você vê a menina mais negra que tem em Mituaçu ela. A mulher mais negra. É porque ela é pretinha chega ela é azulada. Uma prima minha... mais não aceitou. Disse que agente tava ganhando dinheiro pra fazer isso não sei o que... que ela num era negra. Ai pronto. Ai agente parou. Depois foi que começou um grupo de João Pessoa a vir...se reuni aqui. Ai levamos ela até lá. E os pessoal de Mituaçu, viu os primo dagente Maurino veio pra cá...começou convesar e levando pra lá. Mostrando a eles a família dagente de onde tinha vindo, tudinho. Ai foi que a consciência começou. Ai depois dessa história do quilombo, agora não tem mais branco em Mituaçu. Tudo é (risos) negro agora, entendeu.
TEM OS QUE CHEGAM NÉ...
É ... ingressam tudinho no quilombo...
TEM MUITA GENTE DE FORA AQUI NO QUILOMBOLA...
Aqui tem não... aqui a grande questão é que quem é defora não pode entrar na associação. Porque o estatuto reza que só pode entrar na associação, participar quem é descendente dos quilombo. Morar mora, mora muita gente de fora. Mas participar da associação só quem é descendente do quilombo. Que tenha algum parentesco. Teve parentesco aqui ai fica. Pode tá no Rio de Janeiro, pode tá onde tiver, voltou pra qui, é parente dos quilombola, então querendo participar, vai participar. Participando da reunião depois pode se associar.
PRONTO, AI PRA FINALIZAR... A SENHORA INCENTIVARIA OS JOVENS A CONTINUAR NO COCO DE RODA...
Avemaria se eu pudesse, fazia uma reunião com todos os jovens e eles atendessem o chamado, acho que aquela sede onde agente brinca não cabia não. Porque eu acho que isso é uma cultura bonita e que não deve deixar morrer mesmo, de jeito nenhum. De jeito nenhum. A coisa que eu também pudesse mudar era... Era tempo. Era o São João. São João no caso eu falo o São João todo o mês de junho... Santo Antônio, São João, São Pedro. Num é, o mês de Junho. É, quando diz assim, que hoje é véspera de São João, tem uma brincadeira. Ai lá vem, lá vem uma banda toca, num tem nada a haver a banda com o mês de junho. O mês de junho “divia” ser coco, seria forro pé de serra. Forro pé de serra tem tanta gente aqui que toca “caboce”. E o povo aqui já perderam o costume que quando se diz é forro pé de serra. Há é forro pé de serra vou não. Embora que depois vá. Descendo como quem, um gato quando quer pegar um peixe vai olhando, e depois toca uma musica que se agrade entra e dança. Mas diz logo que num “vo”. Vai logo resistindo pra num ir. Se depender, a festa de São Sebastião todo ano via forro. Hoje o jovens já tomaram conta da festa então afastou, não tem festa pra idoso. Só tem pra jovem que pega uma latinha de cerveja e fica com a cara pra cima olhando a banda ali, pronto passou a noite. Os idosos não vão passar a noite olhando pra cima, então não vai lá entendeu, então se eu pudesse mudar isto então com certeza eu mudava.
PRONTO... E A LAPINHA AQUI PRA QUEM QUISER ASSISTIR... É QUE DIA E QUE HORA...
Olhe a Lapinha agente brinca no último sábado do mês também... pronto sábado, o último sábado agora a Lapinha brincou. Brincou a lapinha e brincou o coco de roda. Porque quando vem brincadeiras de fora, vem grupos de fora, ai sempre ainda tem espaço para os dois grupos. Agora quando não vem ou vem um só... Ai tem espaço. A capoeira de Gurugi brinca sempre também aqui com agente no último sábado do mês. Eles tem o grupo do Navio Negreiro. Aquele grupo é muito bonito. Acho muito lindo.
J1/Ascom/Conde-PB/Nucléo de Cultura