A pressa de chegar

 Em uma sociedade que valoriza a velocidade acima de tudo, talvez estejamos chegando a muitos lugares, mas nos afastando de nós mesmos

Foto reprodução Portal J1


Há uma cena que se repete diariamente nas grandes cidades. Pessoas caminham apressadas pelas ruas, estações, terminais e avenidas. Algumas olham para o relógio. Outras mantêm os olhos fixos na tela do celular. Muitas sequer percebem quem passa ao seu lado.
Estamos sempre indo para algum lugar.
Corremos para chegar ao trabalho. Corremos para cumprir compromissos. Corremos para voltar para casa. Corremos para atender expectativas. Corremos tanto que, às vezes, esquecemos de perguntar por que estamos correndo.
Recentemente, enquanto observava o movimento de uma estação de trem, percebi algo curioso. Em meio a centenas de pessoas apressadas, uma criança caminhava tranquilamente ao lado da mãe. Ela olhava para tudo. Observava os trilhos, as placas, os sons, os rostos desconhecidos que cruzavam seu caminho.
Enquanto os adultos pareciam preocupados apenas com o destino, aquela criança parecia encantada com a viagem.
Talvez a diferença entre a infância e a vida adulta esteja justamente aí.
As crianças vivem o momento. Os adultos vivem o próximo compromisso.
Com o passar dos anos, aprendemos a valorizar a produtividade, a eficiência e os resultados. Não há nada de errado nisso. O problema surge quando a busca constante pelo próximo objetivo nos impede de perceber o presente.
Quantas vezes deixamos de apreciar uma conversa porque estávamos pensando na próxima tarefa?
Quantas vezes atravessamos uma rua sem notar uma árvore florida?
Quantas vezes ignoramos um abraço porque a agenda parecia mais importante?
A pressa tem sua utilidade. Ela nos move. Ela nos ajuda a cumprir responsabilidades. Mas quando se torna permanente, transforma-se em uma espécie de distração coletiva. Estamos tão focados em chegar que deixamos de viver o caminho.
E a vida, quase sempre, acontece no caminho.
Ela está nos encontros inesperados, nas conversas breves, nos silêncios necessários e nos detalhes que passam despercebidos quando o relógio se torna nosso único guia.
Talvez o verdadeiro desafio dos nossos tempos não seja acelerar ainda mais. Talvez seja aprender a desacelerar sem culpa.
Porque chegar é importante.
Mas perceber também é.
E, no fim das contas, as lembranças mais valiosas raramente nascem da pressa. Elas nascem dos momentos em que tivemos tempo para olhar, sentir e simplesmente estar presentes.
Júnior Martins é jornalista, cronista e colunista do Portal J1.


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